O Demérito em Falar das “Pessoas que Menstruam”
Um Debate Terminológico que Ofusca Questões Cruciais*
A propósito do recente "sound bite" político “pessoas que menstruam”, importará sublinhar e criticar o demérito de toda a discussão que se gerou e gera em torno de uma questão que nos devia, uma vez mais, unir e não dividir.
Mas há quem teime no divisionismo... (pausa para trincar uma batata!)
Este termo, promovido como uma forma de linguagem neutra e inclusiva, tem sido alvo de críticas, especialmente por parte de facções mais conservadoras. A controvérsia gerada em torno do uso dessa terminologia frequentemente desvia o foco de questões muito mais urgentes e críticas relacionadas à saúde pública, direitos humanos e dignidade.
Há, sem dúvida, um demérito de quem escolheu a terminologia que, muito embora pretendesse agregar e incluir, gerou divisionismo, polarização social e política e, uma vez mais, é inflamada pelo desconhecimento, a ignorância e a intolerância ao próximo e aos direitos dos outros (sejam eles quem forem).
O Debate Terminológico e os Conservadores
A expressão “pessoas que menstruam” foi criada com o intuito de incluir todas as pessoas que, independentemente da identidade de género, experimentam a menstruação. Isso inclui mulheres cisgénero, homens transgénero e pessoas não-binárias.
Os defensores dessa terminologia argumentam que o uso de uma linguagem mais inclusiva é crucial para o reconhecimento e a visibilidade das experiências diversas dentro da sociedade.
Por outro lado, grupos conservadores têm-se oposto fortemente a essa mudança, alegando que ela desvirtua o entendimento tradicional de género e sexo biológico. Para estes, a linguagem neutra pode parecer uma tentativa de apagar as mulheres e o reconhecimento de sua luta histórica por direitos. Não me parece que o seja, mas são livres os que pensam que assim seja!
Esta polarização na discussão tem levado a um impasse neutralizador, divisionista e retardador do desenvolvimento da cultura dos Direitos e da Dignidade do Ser Humano, onde o debate terminológico passa a ocupar o centro da discussão, em detrimento das questões fundamentais.
E que questões são essas?
São as questões de Saúde Pública e de Direitos Humanos
Enquanto o debate terminológico se intensifica, questões de saúde pública e direitos humanos relacionadas à menstruação continuam a ser deixadas de lado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONU e a Amnistia Internacional têm enfatizado que a menstruação deve ser tratada como uma questão de dignidade humana e de direitos fundamentais. A falta de acesso a produtos menstruais, saneamento adequado e educação sobre a menstruação afeta milhões de pessoas em todo o mundo, contribuindo para a perpetuação de desigualdades de género e sociais.
Temos a tendência (nós, os ocidentais que estamos na poltrona de comando na mão... [+ 1 pausa para batata] para vermos o mundo ao redor da nossa sala de estar e do retângulo que nos invade com o que vamos dali comendo (seja a TV, seja o ecrã que nos dá acesso à "verdade" da Internet), olvidando que em todo os países há quem menstrue (na verdade, mais de metade da população mundial menstrua!!!), sem condições de dignidade mínimas, sem água potável e saudável, sem produtos de higiene, sem garantias fito-sanitárias que neutralizem infecções, doenças e até minimizem o impacto que essas questões têm na saúde mental.
É difícil - porque dá trabalho - sair desse sofá, dessa poltrona e olhar pela janela, ver os outros, percebê-los e respeitá-los!!!
O foco exagerado na linguagem pode ofuscar o diálogo sobre essas questões críticas. Por isso também compete a quem escreve essas linhas anunciadamente polémicas que tenha o saber de dar o foco ao que é premente e essencial.
É urgente que a menstruação seja reconhecida como uma questão de saúde pública, onde o acesso a produtos menstruais e a criação de ambientes higiénicos e seguros sejam garantidos na menstruação, sendo essencial abordar o estigma associado à menstruação, que ainda é prevalente em muitas culturas, resultando em discriminação e exclusão.
É fundamental garantir a Dignidade e o Respeito
A dignidade humana deve estar no centro de qualquer discussão sobre menstruação. Isso significa que, além de considerar a terminologia, é fundamental garantir que as políticas públicas e as práticas sociais respeitem e protejam os direitos de todos.
A linguagem, embora importante, não deve ser uma distração do que realmente importa: o acesso equitativo aos direitos humanos básicos.
Em resumo, enquanto o uso da expressão “pessoas que menstruam” pode ser visto como um passo em direção a uma linguagem mais inclusiva, é vital que essa discussão não ofusque as questões urgentes de saúde pública e direitos humanos que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. O foco deve ser colocado na criação de um ambiente onde todas as pessoas, independentemente de sua identidade de género, possam viver com dignidade, respeito e acesso igualitário a recursos e oportunidades.
*Opinião "sem batata frita"! Porque a Dignidade e o Respeito pelos Direitos Humanos não é para ser tratada no snack-bar!
Comentários