sexta-feira, janeiro 08, 2010

A Justiça e a Lesma - A Fábula

No tempo em que os animais falavam e as outras coisas também, encontraram-se certo dia a Justiça e a Lesma num qualquer cruzamento de caminhos.

Regozijando-se por se reencontrarem, logo cedo acordaram em fazer uma corrida. Sem falsas modéstias ou quaisquer presunções, apenas e tão somente acordaram em correr até uma qualquer definida meta.

Ao som da largada iniciaram a sua cruzada.

A Justiça, num arranque súbito, muniu-se, no seu amplo ministério e saber, de secretarias e acessorias, magistraturas e advocacias. Definiu regras, regulamentou novos trilhos, fechou os mais sinuosos (pelo menos em seu entender), estabeleceu jurisprudências, doutrinas e outras ciências e correndo, seguia, concentrada o seu complexo caminho.

Enveredou por labirinticas sucadas, rodopiou em inconsequentes furacões, perdeu-se em infantis amores, mas sempre rumo à sua ambicionada meta... justo era o seu saber e o seu querer!

A Lesma - esse invertebrado animal - fez-se, como é seu apanágio, em vagaroso e viscoso caminho rumo ao seu destino.

O tempo foi passando, passando, e a Justiça e a Lesma não mais se cruzaram... passaram-se meses, anos, talvez mesmo décadas ou séculos... ao certo não sabemos... e um dia a Lesma cruzou a linha da meta.

Espantada por não ver a Justiça por ali - convicta que a corrida estaria para si perdida desde o primeiro momento em que vira tão formosa e inteligente amiga - perguntou a um jumento que por ali passava: "-Viste a Justiça por aqui?"

"Por aqui não vi, não!" - respondeu, pachorrento - " mas além, para lá dos vales e montes, antes do cruzamento dos rios com o mares, dos prados verdes e dos desertos, vi!"

Andava pois a Justiça bem perto do sítio onde a encontrara a Lesma naquele dia em que combinaram a corrida...

Estava, pois e assim, na meta a Lesma e a Justiça na mesma...

Sendo a segunda cega e sendo certo que não dormiu, não lhe bastou a sua ciência para sair do ponto onde se encontrava.

Triste sina a sua, que ainda hoje, segundo se crê, perdura.

Numa história sem moral, intemporal e nada maioral, fica uma coincidente semelhança com uma outra, popularmente conhecida, de uma corrida entre uma esperta Lebre e uma Tartaruga...

@2010 RM